SureKits
Quanto vale saber o que foi usado na cirurgia?
Reunimos o que a literatura científica já mediu sobre RFID em instrumentais cirúrgicos, o que ainda é projeção, e uma calculadora para você fazer a conta com os números do seu hospital.
Antes dos números: o que cada número significa
Misturar resultado medido com estimativa é o jeito mais rápido de prometer o que não se entrega. Por isso separamos cada dado em quatro categorias e dizemos sempre de qual se trata.
Observado
Tempo, taxa de leitura ou número de instrumentos registrados diretamente em teste ou na operação.
Implementado e medido
Mudança que de fato aconteceu no kit, no tempo ou no volume de reprocessamento depois da implantação.
Estimado
Valor financeiro, payback ou custo evitado calculado por modelo. Não prova que o dinheiro deixou de sair do caixa.
Proposto
Configuração calculada de kit que ainda não foi implantada nem validada ao longo do tempo.
Também separamos o que foi demonstrado com RFID do que veio de estudos de racionalização de kits feitos sem RFID. O benefício desses últimos não pode ser atribuído automaticamente à tecnologia.
De onde vêm os ganhos
Saber, instrumento por instrumento, o que entrou na sala e o que foi realmente usado abre quatro frentes de ganho. Cada uma tem um tipo diferente de evidência.
1. Conferir mais rápido
A leitura por RFID reduz o tempo da contagem item por item. A contagem manual do protocolo continua até o hospital validar a mudança.
2. Montar com conferência
O sistema aponta o que falta ou sobra na caixa durante a montagem, antes de ela seguir para a sala.
3. Separar usado de não usado
Ao final da cirurgia, o instrumentador ou o enfermeiro separa o que foi efetivamente usado do que não foi, e a contagem é feita com o coletor em duas etapas. Com dezenas de procedimentos, surge um retrato real do uso de cada kit.
4. Kits sob medida (rightsizing)
Os instrumentos que quase nunca são usados saem do kit padrão e passam a ser fornecidos em embalagens individuais, só quando o cirurgião precisa. A caixa fica menor, é reprocessada com menos peças e exige menos compras.
O rightsizing é onde está o maior potencial financeiro, e é também onde o cuidado clínico importa mais: toda retirada de peça é revista e aprovada por cirurgiões e CME.
O tamanho da oportunidade financeira
Estes estudos reduziram ou propuseram reduzir kits e calcularam o impacto em custo. Quase todos os valores são estimativas e nenhum usou RFID para obter a economia. Mostram o tamanho da oportunidade, não o retorno de uma tecnologia. Os hospitais e as universidades citados são autores dos estudos, não clientes da Identhis.
- US$ 233 milsomando reesterilização por ano e compras evitadas, cirurgia plásticaEstimado
- −62,5%dos instrumentos de um kit vascularImplementado
- −80,7%no kit de cirurgia da mãoProjetado
| Estudo | Mudança | Valor e natureza | Ref. |
|---|---|---|---|
| UNC Rex, cirurgia plástica, 183 casosUS$ 233 milreesterilização/ano + compras, estimado | Retirada de 45,1% de um kit (71 peças) e 36,7% de outro (109); 2.652 instrumentos físicos removidos | US$ 69.441/ano em reesterilização e US$ 163.800 em compras evitadas, estimados | [11] |
| UNC Rex, cirurgia vascular, 168 casosUS$ 195 milreesterilização/ano + compras, estimado | Retirada de 45,8% e 62,5% de dois kits; 1.255 instrumentos físicos; preparo de mesa de 7:44 para 5:02 e de 8:53 para 4:56 | US$ 97.444/ano em reesterilização e US$ 97.781 em compras evitadas, estimados | [12] |
| Brigham and Women’s, 2026US$ 153 milcalculado em 6 meses | 29 configurações reduzidas a 12; 11.627 reprocessamentos de instrumentos evitados em seis meses | US$ 153.089 calculados (centro cirúrgico e CME); payback estimado de 5,3 meses, em projeto sem RFID | [16] |
| Canadá, ortopedia, 80 procedimentosUS$ 34 mil/anoprojetado | Modelo propôs 47 instrumentos em vez de 88 (−47%) | US$ 34.440/ano, projetado | [13] |
| Cirurgia da mão, 19 procedimentosUS$ 14 mil/anoprojetado | Média de 120,1 itens abertos e 12,6 usados; kit teórico de 23,2 peças | US$ 13.603/ano e −80,7%, projetados | [14] |
| Holanda, 162 cirurgias−55%custo por uso, modelado | Kit de 94 peças; otimização sugeriu −54% de tamanho e peso | −55% de custo por uso, modelado | [15] |
- Ordenado do maior para o menor valor estimado; o valor do Brigham cobre seis meses; o estudo holandês, que traz só percentual, fica por último.
- Os US$ 153.089 somam custos do centro cirúrgico e da CME. Não são economia integral de esterilização nem retorno de RFID.
O que já foi medido com RFID
Estes resultados vêm de estudos que usaram RFID em instrumentos cirúrgicos. Cada linha vale para o arranjo daquele estudo, não para qualquer hospital.
- −74%no tempo de contagem de 98 instrumentos, em cenário simuladoObservado
- −51%no fornecimento de instrumentos dos kitsImplementado e medido
- −50%no tempo de montagem de um conjuntoImplementado e medido
| Frente | Resultado documentado | Natureza | Ref. |
|---|---|---|---|
| Contagem, 75 e 98 instrumentos−74%tempo de contagem | Manual 130,0 s contra RFID 53,5 s; manual 263,3 s contra RFID 67,5 s, em cenários simulados | Observado | [1] |
| Contagem, 41 instrumentos−66%leitura vs. código de barras | RFID 64,0 s contra código de barras 190,4 s, com equipe experiente | Observado | [2] |
| Rightsizing, Duke (ampliado)−51%fornecimento do kit | Redução média de 50,8% do fornecimento em kits mamários e ortopédicos; preparo da cirurgia mamária de 23 para 17 minutos | Implementado e medido | [8] |
| Montagem de conjunto de laparotomia−50%tempo de montagem | De 20 para 10 minutos; utilização do conjunto principal de 50% para 66% | Implementado e medido | [4] |
| Rightsizing, Duke (mama)−40%instrumentos do kit | 25 de 62 instrumentos retirados (40,3%); nenhum dos 25 foi solicitado em 10 cirurgias seguintes | Implementado e medido | [7] |
| Contagem, cerca de 130 itens−29%tempo de contagem | De 7 para 5 minutos em hospital japonês | Relato operacional | [3] |
| Montagem de caixas0 errosem 94 montagens | 94 montagens em 27 meses sem erro de montagem observado | Observado | [5] |
| Uso intraoperatório95%detecção por passagem | Detecção de 95% em passagem única e de 100% acumulada ao longo do procedimento, em 15 pacientes, com interferência do eletrocautério relatada. Não equivale a leitura completa a cada passagem. | Observado | [6] |
| Uso real e concordânciaκ 0,82concordância | Concordância κ = 0,82 com a observação humana em 15 cirurgias mamárias | Observado | [7] |
- Ordenado do maior para o menor ganho percentual; as linhas sem percentual de ganho vêm por último.
- No ensaio de 125 instrumentos, a contagem completa ocorreu em 2 de 4 testes; nos outros dois foram detectados 124 de 125. Por isso não afirmamos leitura de 100% em todos os testes.
- Os dois trabalhos da Duke pertencem ao mesmo programa e podem ter casos em comum. Não são validações independentes.
- A ausência de erros na montagem é um dado concreto, mas não mede redução frente a um grupo de controle.
O que se sabe no Brasil
Há trabalhos brasileiros relevantes sobre racionalização de instrumentais. Eles confirmam a oportunidade, mas nenhum demonstra o ganho adicional do RFID.
| Publicação | Dado observado ou estimado | O que não se conclui | Ref. |
|---|---|---|---|
| Hospital universitário do Sul, oftalmologia, 2020R$ 420 milcompras evitáveis, estimado | −13,10% de itens por bandeja; produção cirúrgica anual +17,88%; R$ 420 mil em compras evitáveis, estimados | O aumento de produção dependeu também de agenda e capacidade; não é efeito isolado do RFID | [18] |
| Porto Alegre (HCPA), 2018−10,9%peças por bandeja, observado | Redução média observada de 10,92% das peças por bandeja | Não usou RFID e não calculou ROI de tecnologia | [17] |
| Santo André (SP), ortopedia, 2023R$ 34 mildesperdício estimado | 854 caixas consignadas processadas e não utilizadas após 85 cirurgias canceladas; desperdício estimado de R$ 34.340,18 | Não equivale a 854 kits economizados com RFID nem a preço por instrumento | [19] |
- R$ 34.340,18 divididos por 854 caixas dão cerca de R$ 40,21 por caixa. É uma média do desperdício estudado, não um custo por instrumento nem uma tabela de preços. O mesmo estudo cita R$ 19,11 por objeto de custeio processado, calculado por absorção, que também não é custo marginal por instrumento.
- Por isso a calculadora abaixo não traz preços de referência. O custo de reprocessamento é o do seu hospital.
Quanto custa reprocessar um instrumento no Brasil
Para calcular o retorno de qualquer solução que reduz o reprocessamento, é preciso um custo por instrumento e por ciclo. Não existe um valor nacional comprovado. Reunimos os valores que aparecem em seis referências brasileiras de custeio. Variam de R$ 0,29 a R$ 8,18, porque medem coisas diferentes.
| Fonte | Custo unitário | O que o valor inclui |
|---|---|---|
| Contratações públicas, 2024 a 2026 | R$ 8,18 | Mediana por unidade contratual de serviço de esterilização. A unidade contratual nem sempre é uma peça |
| Governo do Estado de Rondônia, 2023 | R$ 6,34 | Referência estimada por instrumento, usada no planejamento de contratação |
| Souza et al., Rev Eletr Enferm, 2015, citado por Lopes e Poveda (2023) [19] [23] | R$ 6,05 | Custo de esterilização por artigo, segundo a metodologia citada |
| Mesmo estudo [19] [23] | R$ 5,33 | Por produto processado na CME, de qualquer tipo |
| Paula et al., Revista SOBECC, 2015 [24] | R$ 0,29 | Por instrumento, com o rateio da autoclave e da mão de obra, mas sem todo o custeio da CME |
Custo integral
Limpeza, inspeção, montagem, embalagem, esterilização, mão de obra e custos indiretos rateados. É o valor de toda a atividade de reprocessar, e a referência preliminar que usamos é R$ 6,34 por instrumento por ciclo.
Economia realizável
São só os custos que deixam de existir quando o instrumento sai do kit. Se um kit passa de 80 para 60 instrumentos, o hospital continua usando a autoclave e vários recursos da CME. Não se pode contar 20 × R$ 6,34 como economia.
Onde a economia costuma estar
No estudo brasileiro de 2023 sobre caixas ortopédicas, a etapa de inspeção e preparo foi a que mais consumiu tempo de trabalho (por exemplo, 103 de 218 minutos em caixas de quadril). Por isso a mão de obra economizada precisa ser medida.
Use R$ 6,34 como custo integral de referência, mas calcule o custo marginal evitável do seu hospital antes de apresentar o retorno como economia comprovada.
- Os valores históricos não foram corrigidos monetariamente, e o de R$ 6,34 é de 2023.
- Os valores vêm da revisão de seis referências de custeio. Não são uma média nacional comprovada estatisticamente, mas servem de parâmetro inicial para estudos de viabilidade.
- Na calculadora abaixo, o custo integral é uma referência editável, e a parte que de fato deixa de existir é um campo separado. O valor de partida dessa parte é 30%, conforme estudos. Meça o seu na CME.
Faça a conta com os números do seu hospital
A calculadora segue o método do relatório de evidências: parte de quantidades físicas (instrumentos retirados, reprocessamentos por ano) e só então aplica o custo variável real do hospital. Os campos já vêm preenchidos com valores de exemplo, apenas para mostrar como o cálculo funciona. Não são dados de mercado. Substitua todos pelos seus.
Os dados não saem do seu navegador.
O que ainda não está provado
Dizer isso com clareza é o que dá credibilidade ao resto.
Desfechos clínicos
Não há estudo robusto que atribua ao RFID individual de instrumentos redução de infecção do sítio cirúrgico, mortalidade, objetos retidos ou cirurgias canceladas.
Perdas e quebras
Também não há demonstração de redução causal de perdas patrimoniais, reparos ou quebras. Há dados de histórico por instrumento que permitem estudar a vida útil, mas não provam que alertas reduziram quebras.
Payback de racionalização
O payback obtido ao enxugar bandejas sem RFID não é payback de tags, leitores e software. Os dois trabalhos da Duke também não se somam como amostras independentes.
Tecnologia diferente, resultado diferente
Vários estudos usam RFID de alta frequência (13,56 MHz). Uma arquitetura UHF, como a do SureKits, exige validação própria de leitura, proximidade de metal e esterilização.
Contagem obrigatória
A AORN trata o RFID como auxiliar da contagem. Nenhum dos estudos justifica abolir a contagem manual do protocolo sem validação e aprovação do hospital.
Norma brasileira
A RDC 15/2012 trata da rastreabilidade dos lotes de esterilização. Ela não obriga RFID individual por instrumento.
A leitura correta: os números publicados mostram viabilidade e potencial. Eles não substituem uma avaliação local, e é por isso que sugerimos um piloto com indicadores combinados antes.
Como validar no seu hospital
Um piloto bem desenhado separa três resultados e não conta a mesma hora de trabalho duas vezes.
1. Desempenho da leitura
Tempo de conferência e acurácia, com os mesmos tipos de kit e a mesma equipe, incluindo exceções e retrabalho.
2. Economia operacional medida
Instrumentos retirados após aprovação clínica, solicitações de peças retiradas nos casos seguintes e reprocessamentos evitados, comparando antes e depois.
3. Benefício financeiro líquido
Conciliação entre custo variável, horas realmente capturáveis, compras evitadas, investimento e custo recorrente.
Referências
Os números entre colchetes nas tabelas remetem a esta lista. Os links levam à página da publicação original e alguns exigem assinatura. As referências 20 e 21 são normativas e profissionais, e a 22 é uma revisão, não um estudo de intervenção.
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- Kusuda K, Yamashita K, Morishita E, et al. Comparison of Reading Times of RFID-Tagged and Barcode-Engraved Surgical Instruments. J Surg Res. 2024;304:121-125. doi.org/10.1016/j.jss.2024.09.087
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- Paula MAB et al. Custo do processamento de instrumentais cirúrgicos. Rev SOBECC. 2015. sobecc.emnuvens.com.br
Quer ver isso com os kits do seu hospital?
Conversamos sobre um piloto com indicadores combinados antes, para que o resultado seja o seu, e não o de um estudo estrangeiro.